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Você já reparou na paleta de cores de The Bear?

Eu normalmente assisto muita série, mas faz pouco tempo que comecei a reparar nas cores que escolhem pra cada cena e tentar entender o porquê. Em The Bear isso é escancarado, e mexeu um pouco com o meu jeito de trabalhar com cor.

Carmy e Sydney lado a lado numa rua de Chicago, ele de camiseta branca e ela de azul e branco
The Bear / FX Networks.

Já vou avisando que esse texto aqui é meio desvio. Mas tem uma coisa útil no meio, que é entender que cor não entra num projeto só porque combina. Ela diz alguma coisa, querendo você ou não.

Série é o meu negócio. Filme eu quase não vejo (vai entender, né). É que série tem tempo. Ela vai construindo o personagem devagar, deixando você entender o cara aos poucos, episódio atrás de episódio. Filme pra mim é corrido demais, mal dá tempo de gostar de alguém.

Guarda essa ideia de tempo aí que ela volta no fim.

E aí, faz um tempo, eu peguei um vício novo. Em vez de só acompanhar a história, comecei a olhar pra cor da cena e ficar remoendo por que escolheram aquela e não outra.

Quando eu cheguei em The Bear, não teve mais volta. Tem uma cena que eu não tiro da cabeça.

O Carmy fica preso no congelador. Lá dentro é aquela luz azul de geladeira, fria, chapada. E do lado de fora está todo mundo na luz quente, no meio do maior caos, mas tocando o restaurante do mesmo jeito. Uma porta separando as duas coisas.

Ninguém te explica nada ali. Você só entende.

Carmy dentro da câmara fria conversando com Richie, tudo banhado de luz azul
A câmara fria e a briga com o Richie na mesma imagem. Azul chapado de geladeira, e a cena vai escurecendo conforme o negócio aperta. The Bear / FX Networks.

Sabe quando a cor conta a história antes do roteiro?

O primo dele solta uma frase que resume o personagem inteiro, que é que o Carmy não consegue deixar nada de bom acontecer na vida dele. E aí a cena do congelador é exatamente isso desenhado com luz.

E o mais cruel nem é ele estar trancado. É que lá fora dá certo. Não é bonito, é um caos, mas o restaurante roda. Ele fica no frio, sozinho, vendo a coisa funcionar sem ele do outro lado de uma porta que ele mesmo fechou.

E olha, não é uma cena solta. A série inteira é lavada de azul, cinza e branco. Cor fria.

Só que não é tristeza, ou pelo menos não é só isso. Segura esse azul na cabeça que eu volto nele no meio do caminho.

Repara num detalhe que eu acho genial. Quando o negócio aperta de verdade, tipo naquela briga com o Richie, a cena não só esfria, ela escurece. Vai chegando perto do breu. É o buraco em que ele se enfiou virando imagem na tela.

Se você acha que eu estou vendo coisa onde não tem (o que, convenhamos, também acontece), segura aí que eu tenho duas cenas pra te mostrar.

Duas cenas que provam que isso é pensado

Primeira. No segundo episódio da primeira temporada, o Hands, tem aquele flashback do Carmy no restaurante em Nova York. Repara que é tudo branco. Bancada branca, parede branca, dólmã branco. A única coisa com cor ali é a comida e algum utensílio.

Branco normalmente é pureza, folha limpa, começo do zero. Só que folha limpa também é onde a mancha aparece melhor, né. E o que acontece naquela cozinha impecável é um chefe humilhando o cara todo santo dia, chamando ele de sem talento e mandando ele morrer.

A memória mais bonita da série é a mais suja. Isso não é acidente.

Carmy numa cozinha de alta gastronomia em Nova York, tudo branco, sendo observado pelo chefe
Nova York no Hands. Tudo branco, menos a comida. The Bear / FX Networks.
Marcus de perfil em Copenhague, com as casas coloridas de Nyhavn ao fundo e luz quente de fim de tarde
Copenhague no Honeydew. Casa colorida, luz quente, cara aberto pro mundo. The Bear / FX Networks.

Segunda. Agora pega o Honeydew, quarto episódio da segunda temporada, aquele que é só do Marcus em Copenhague. Ali muda tudo. Tem cor pra caramba. A comida tem cor, a cidade tem cor, a luz é quente, até a luminária lá do barco é quente e aconchegante.

Ele está aprendendo, está deslumbrado, está aberto pro mundo.

Pensa comigo. O episódio mais colorido da série é justamente o do cara que está feliz. Não é sorte.

Isso também não é exclusividade dessa série. Crepúsculo, que é um dos poucos filmes que eu vi na vida inteira e que é ruim (não vou nem discutir isso), tem aquele filtro azul acinzentado do começo ao fim. Menos naqueles poucos segundos lá do início, no Arizona, com sol, quando a vida da Bella ainda estava ok. Aí ela se muda pra Forks e a imagem fica cinza junto com ela. Conforme os filmes vão passando e ela vai ficando bem, tudo vai clareando.

Filme ruim, decisão de cor certeira. Dá pra roubar ideia de qualquer lugar.

Só que agora eu preciso me corrigir, porque o que eu falei até aqui está pela metade.

Quente não quer dizer feliz

Pelo Honeydew, dá pra sair daqui achando que a conta é simples. Quente é feliz, frio é triste, fim. A gente aprende isso meio no automático. E é justamente aí que a série mostra que é mais esperta que a média.

Repara nas lembranças de família. O Fishes, sexto episódio da segunda temporada, aquele do Natal. Sim, aquele mesmo. O que é loucura atrás de loucura e que termina com a mãe do Carmy entrando de carro dentro da casa. Pegou qual é?

Pois é. Esse episódio é todo em tom quente. Luz amarela, cozinha de casa, mesa posta, panela no fogo, aquele aconchego todo de ceia. E é também o mais violento da série inteira. Todo mundo gritando, briga por qualquer coisa, garfo voando, trauma escorrendo de cada canto. Não tem nada de feliz ali, tadinho do Carmy.

E ainda assim é quente. Por quê?

A mesa de Natal da família Berzatto no episódio Fishes, iluminada por vela, em tons de âmbar
A mesa de Natal no Fishes. Luz de vela, tom âmbar, e o pior jantar da história daquela família. The Bear / FX Networks.

Porque a casa estava cheia.

Cinco faixas de cor fria, do azul quase preto ao azul claro acinzentado
O frio. Restaurante, cozinha, congelador. Não é tristeza, é sala vazia.
Cinco faixas de cor quente, do marrom escuro ao âmbar claro
O quente. A casa da família no Fishes. Caos completo, mas cheia de gente.

Essa é a chave que eu demorei pra sacar. O frio da série fala de vazio, de solidão, do Carmy com foco em cozinha e mais nada na vida dele. Quando o azul aparece, o que está sendo dito é que não tem ninguém ali.

O quente é o oposto disso, mas não é felicidade. É gente por perto. Mesmo que a gente esteja brigando, mesmo que seja o pior Natal da história daquela família.

Sabendo disso, a cena do congelador fica ainda mais cruel. Porque ele não está triste enquanto os outros estão felizes. Ele está vazio, do lado de um lugar cheio.

E se frio é vazio e quente é gente por perto, tem um lugar onde essa conta aparece inteirinha de uma vez só.

E aí tem o pôster, que é onde eu mais gosto

Vai lá dar uma olhada no pôster da série e repara.

Está tudo frio. Neve, céu azul escuro, o Carmy de avental azul, o Richie de jaqueta preta. E aí, embaixo, tem a Sydney de vermelho. Ela é a única mancha quente do cartaz inteiro.

Vermelho e azul são opostos. Um monte de série usa isso pra dizer que dois personagens são inimigos, que vai ter treta, que um vai passar por cima do outro. The Bear não faz isso.

Porque tem outra coisa que acontece quando você junta vermelho e azul. Dá roxo.

E olha só, boa parte da equipe aparece de roxo no mesmo pôster.

Pôster de The Bear, com o elenco em tons frios e neve, e Sydney de vermelho embaixo
Tudo frio, menos ela. E repara na turma de roxo no meio. The Bear / FX Networks.

Na minha leitura é isso que está sendo dito ali. O Carmy e a Sydney são opostos mesmo, sem discussão. Só que o que sai da mistura dos dois é o restaurante. Tira um dos dois e o roxo simplesmente não existe.

E repara como isso amarra com tudo que eu falei aí em cima. Ele é o frio, ela é o quente. Ele é o vazio, ela é a gente que chega perto. Num pôster, sem uma linha de diálogo.

E nem é exclusividade de série. Crepúsculo, que é um dos poucos filmes que eu vi na vida inteira e que é ruim (não vou nem discutir isso), tem aquele filtro azul acinzentado do começo ao fim. Menos naqueles poucos segundos lá do início, no Arizona, com sol, quando a vida da Bella ainda estava ok. Aí ela se muda pra Forks e a imagem fica cinza junto com ela. Conforme os filmes vão passando e ela vai ficando bem, tudo vai clareando.

Filme ruim, decisão de cor certeira. Dá pra roubar ideia de qualquer lugar.

Só que agora eu preciso me corrigir, porque o que eu falei até aqui está pela metade.

Quando a gente escolhe cor, é isso tudo que está em jogo

Pra ser justo, eu já escolhia cor com intenção antes disso tudo. A série não me ensinou o ofício. O que mudou foi eu começar a reparar em como os outros fazem, e The Bear é o exemplo mais escancarado que eu conheço.

Porque escolher cor não é perguntar se combina. Se ficou bonito junto, se bate com a marca, se está agradável de olhar. Essa é a pergunta fácil, e é onde quase todo mundo para.

A pergunta que interessa é outra. O que essa cor precisa fazer a pessoa sentir quando ela chegar aqui? E o que ela vai contar sozinha, sem ninguém explicar nada?

Parecem perguntas primas, mas dão resultados completamente diferentes.

Teve um projeto de uma loja que vende bonsai de coleção. A resposta pra essa pergunta ali era contemplação, calma, coisa antiga. Aí a página inteira foi pro escuro. É o mesmo truque da galeria de arte, que apaga a luz da sala e acende só em cima do quadro.

Teve outro, de um tatuador que trabalha com cor muito forte, laranja, amarelo, verde de folha. Ali a resposta era que a cor tinha que ser dele, não minha. Então a página ficou preto e branco inteira, e as tatuagens viraram a única coisa colorida da tela.

Duas decisões opostas, saídas da mesma pergunta. Por isso eu bato nessa tecla de que cor é decisão, não gosto.

Ah, e lembra daquilo do tempo, lá do começo? Aquela ideia de que série constrói melhor que filme porque tem mais tempo pra isso.

Acho que é isso que me pegou de vez. A cor de The Bear não te conta nada num frame só. Ela te conta em vinte horas. É o azul aparecendo de novo, e de novo, e de novo, até que uma hora você olha pro congelador e entende tudo sem ninguém explicar nada.

Isso é coisa que só quem tem tempo consegue fazer. E é por isso que eu prefiro série.

E olha, talvez seja por isso que isso me pegou tanto. Numa época em que todo mundo quer que a mensagem caiba em três segundos, The Bear aposta que você vai ficar vinte horas. Aposta que você repara. Aposta que você aguenta o silêncio de uma cena azul sem alguém explicando o que ela quer dizer.

Deu certo com ela. Deu certo comigo.

Enfim, desculpa o desvio. Eu reparo nessas coisinhas.

As imagens de The Bear são material de divulgação da FX Networks e aparecem aqui só para ilustrar o comentário sobre a série. Todos os direitos são dos detentores. As paletas de cor foram feitas por mim.

Tem mais texto meu lá no blog.

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